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Tributo a Geraldo Roca é marcado pela emoção no primeiro dia do FIB

Suas mãos estavam cansadas e os dedos não conseguiam fazer os movimentos para os solos em seu surrado violão de 12 Takamine. Já havia se passado mais de 1 hora em que Paulo Simões estava realizando a missão mais difícil de sua longa carreira profissional: o tributo em homenagem ao seu amigo e parceiro Geraldo Roca. Na última canção do set list do show “Uma Pra Estrada”, que abriu a programação musical do Festival de Inverno de Bonito (FIB) na quinta-feira (28.07), Paulinho estava visivelmente emocionado e com ares de maratonista na reta final.

“Trem do Pantanal”, composição de Paulinho e Roca, encerrou o espetáculo que reuniu artistas de diferentes gerações com todos cantando a canção feita em 1975 e que se tornou o hino não oficial de Mato Grosso do Sul. O hit mochileiro abriu o show com nova roupagem do trio Hermanos Irmãos e também encerrou a festa dedicada ao compositor que faleceu no dia 25 de dezembro de 2015. A produção para o tributo começou bem antes.

Com direção artística assinada por Paulo Simões e Jerry Espíndola, produção de Karla Viegas, o tributo trouxe ao público entrevistas e apresentações de Geraldo Roca entre uma música e outra por meio dos telões. A voz grave do músico retumbando na Praça da Liberdade e a imagem do compositor emocionou o elenco do show e a família que acompanhava o concerto na primeira fila do público. Uma a uma, as músicas de Roca foram ganhando reinterpretações emotivas dos participantes.

A surpresa ficou para “Caia Fora”, canção inédita de Roca que Paulo Simões guardava na memória e tirou do baú para a ocasião. Ele cantou a “pérola” junto com Geraldo Espíndola antes de encerrar o show com “Trem do Pantanal” e o ar de “déjà vu” já estava instalado. “Deixe o lobo que sou com meus velhos discos de rock’n roll’ dizia a letra da música com forte influência de Bob Dylan. Antes, os convidados já haviam relido clássicos de Roca. Guga Borba brilhou com “Mochileira”. Ju Souc trouxe uma sensível versão de “Uma Pra Estrada”. Marina Dalla atacou com o rock “Débora” e Jonavo deu conta da difícil missão de interpretar a personalíssima “O Que o Dinheiro Não Compra”, uma das letras mais ousadas e irônicas de Roca.

O trio Hermanos Irmãos tocou a canção homônima que tem assinatura de Roca e ainda Rodrigo Sater e Paulo Simões. “Somos latinos, hermanos, irmãos!” citado na letra resgata toda o lado sul-americano de Roca que foi deixando o rock primal aos poucos e mergulhando na latinidade do continente ao extremo. Geraldo Espíndola cantou “Rio Paraguai” de forma definitiva em uma interpretação em que a letra secular de Roca veio com força: “a tradição entre nós é você”. Paulinho ficou com “Japonês Tem Três Filhas” e “Polca Outra Vez”, músicas símbolos da mistura de ritmos fronteiriços e um discurso multicultural compostas por um visionário Roca ainda na década de 1970.

Com iluminação de Camila Jordão e projeções de Paulo Higa, o show ainda contou com uma banda afiada e sensível formada por Sandro Moreno (bateria), Alex Fralda (teclados e sanfona), Gabriel Basso (baixo) e Leandro Perez (guitarra). A emoção, no entanto, iria aumentar ainda mais pouco antes do final do espetáculo com a chegada da informação de que a professora Glorinha Sá Rosa havia falecido. Personalidade master da cultura sul-mato-grossense, Glorinha foi professora de Paulinho e Geraldo e acompanhava a carreira de Roca desde a sua adolescência.

A notícia foi dada com todo cuidado a Simões e Geraldo Espíndola antes dos dois descerem do palco. Não havia como não pensar que Roca e Glorinha se encontraram no plano espiritual e estavam assistindo aquilo tudo de camarote celestial. Mais do que emoção ficou no ar. O tributo já tinha se tornado lendário e histórico.

Rodrigo Teixeira / Foto: Eduardo Medeiros