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“Por um fio”, da Mimulus Cia de Dança, surpreende o público do Festival pela qualidade e sensibilidade

 

Bonito (MS) – Um espetáculo  intimista que retrata com muita sensibilidade o universo do artista plástico Arthur Bispo do Rosário. “Por um fio”, da Mimulus Cia de Dança, de Belo Horizonte, Minas Gerais, foi apresentado na Praça da Liberdade na noite deste domingo (30.07), último dia do Festival de Inverno de Bonito.

Arthur Bispo do Rosário foi um artista plástico falecido em 1989. Rosário sofria de esquizofrenia, e durante seu período de internação na Colônia Juliano Moreira, um sanatório no Rio de Janeiro onde permaneceu por mais de 50 anos, produzia objetos com diversos itens oriundos do lixo e da sucata que, após a sua descoberta, seriam classificados como arte vanguardista. Entre os temas de suas obras destacam-se navios (tema recorrente devido à sua relação com a Marinha na juventude), estandartes, faixas de misses e objetos domésticos.

A Cia Mimulos reconstrói esse universo, com um emaranhado de fios elétricos, filamentos das lâmpadas incandescentes que se confundem com os fios condutores das coreografias e com a sucata do trabalho dos bailarinos, que lhes servem de matéria prima para a composição da obra. O figurino inspira-se na forma como os internos vestiam-se para os bailes da Colônia Juliano Moreira, é confeccionado em sua maior parte com o aproveitamento de retalhos e tecidos descartados. A exemplo das obras do Bispo, as peças são bordadas com textos, palavras e inventários. Trabalho realizado pelas “Meninas do Cafezal”. O espetáculo “Por um fio” é uma homenagem ao centenário de nascimento de Arthur Bispo do Rosário e aos 20 anos de sua morte.

O diretor artístico da Companhia, Jomar Mesquita, que também atuou como bailarino, ao final do espetáculo disse que do processo de pesquisa até a estreia foram nove meses de trabalho. “Escolhemos o universo de Arthur Bispo do Rosário pela genialidade de sua obra, pela riqueza e admiração pela obra dele, e aproveitamos o centenário do seu nascimento para fazer uma homenagem [o espetáculo estreou em 2009]. É um desafio para a companhia, pela primeira vez transpomos a obra de um artista plástico para a dança. Sempre escolhemos temas que nos desafiem, universos diferentes dos quais a gente já criou”.

Sobre a trilha sonora, bem eclética, Jomar explica que tem sua unidade feita por um som, um “fio” condutor, que é do CD “O fio”, da cantora francesa Camille. “Esse som, esse fio, permeia todo o CD, e foi mixado com todas as músicas do espetáculo”. Músicas que vão desde o samba, o erudito, música brasileira e francesa.

Para Jomar, apresentar em Bonito representou uma “energia maravilhosa”. “Foi muito desafiador para nós, pois o espetáculo é muito intimista, mais apropriado para apresentações em teatro, onde o público está mais próximo. Mas foi muito gostoso trazer esse universo intimista para o Festival, que tem essa característica de ser ao ar livre”.

O público estava realmente conectado com o espetáculo, que encantou, surpreendeu pela qualidade e arrancou aplausos entusiasmados da plateia. Fabiana da Rosa Ribeiro estava com sua irmã Luna Palermo da Rosa, que é mãe da Ana Luiza. Elas são bonitenses e todo ano participam do Festival, mas até agora nunca tinham prestigiado um espetáculo de dança. “Achamos lindo a forma como eles dançam! É interessante, nunca tínhamos assistido dança. Achamos legal, interessante. O que eu mais gostei foi da coreografia em que todos eles sobem um em cima do outro”, diz Fabiana.

O professor de Educação Física da UFMS e bailarino do Grupo Bailah, que se apresentou no Festival na manhã de sábado, em Águas de Miranda, Marcelo Victor da Rosa, ia embora para Campo Grande mas desistiu depois que ficou sabendo da apresentação da Mimulus Cia de Dança. “A Mimulus é a maior companhia de dança de salão contemporânea do Brasil. Eu já tinha visto este espetáculo em Minas, mas quis ver novamente porque é muito bom, é excelente. A gente tem que prestigiar, pois não é sempre que se tem uma companhia deste nível aqui”.

Entusiasmado com o espetáculo e com a obra de Arthur Bispo do Rosário, Marcelo era só elogios. “Arthur Bispo do Rosário é um artista, só que foi colocado no manicômio, o que para a sociedade não teria retorno. Mas produziu muitas obras que estão hoje em museu. Depois da morte, seu trabalho foi valorizado. Este espetáculo articula não só o movimento, mas a expressão, a luz. Tudo é um fio que perpassa por todas as artes”.

Fotos: Eduardo Medeiros