Governo do Estado de Mato Grosso do Sul

Marco – III Temporada de Exposições 2014

Agosto a Outubro

Drama e densidade em Vânia Pereira

Vânia Pereira, um dos nomes significativos da produção artística sul-mato-grossense, produziu um vasto trabalho usando linguagens diversas que determinaram a versatilidade da artista em suas percepções sobre a paisagem, memória e as relações humanas.

Vânia encontrou sua grande expressão no desenvolvimento da gravura em metal, explorando com propriedade a técnica da ponta-seca (processo de gravação da imagem na matriz de metal por incisão direta usando um instrumento com ponta de aço), o que fez da artista referência da linguagem no pioneirismo do uso dessa arte no Estado.

Considerada grande mestra da arte de gravar, desenvolveu também trabalhos em pintura e desenho. A obra de Vânia tem muita dramaticidade e as imagens são geralmente densas, escuras e cada traço negro ou cada pincelada de cor traduz o envolvimento emocional da artista na busca do aperfeiçoamento formal de suas investigações.

Com boa parte da produção de Vânia Pereira pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO) é possível estabelecer recortes que enfatizam os vários aspectos de seu trabalho, oferecendo ao público a chance de revisitar a obra consistente dessa artista que contribuiu com personalidade na constituição da história da arte local.

Rafael Maldonado
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Exposição: Dedicatórias
Artista: Hermano Luz

Lembrar – Nomear

Ainda hoje, em rodoviárias da América Latina, um fotógrafo lambe-lambe oferece como produto de seu trabalho pequenas fotos em preto e branco no formato 3×4 ou, no máximo esforço de modernidade, o opcional monóculo com o pequeno diapositivo colorido.

Ele sobrevive ao lado de seus concorrentes, a máquina automática de retratos e a vitrine em que são oferecidas câmeras digitais, enquanto na calçada em frente um transeunte recebe por e-mail a fotografia da namorada em seu telefone celular. Essa convivência, de caráter absolutamente político, indica um conflito típico da urbanidade, que se reproduz em várias escalas.

Enfrentamos displicentes, ou no máximo curiosos, o confronto com o processo constante de ultrapassagem das mídias de registro. Enquanto os mais velhos se atualizam com grande empenho, para escapar de um ameaçador fosso jurássico, aos mais jovens resta, sob a forma de valor disperso, um conjunto de mecanismos cujo caráter tornou-se antropológico, eventualmente estético. Atestam a transformação como parte indissolúvel do tempo vivido, povoado pela melancolia do acúmulo de recordações.

Faz-me lembrar de minha infância em Três lagoas, de quando íamos ao estúdio de Fares Zaguir para o retrato dos irmãozinhos vestidos de marinheiros, congelados de cabeça para baixo sobre o nitrato de prata, aguardando o flash antiquado disparar. A foto quase sépia era ampliada em um papel de textura pesada, tinha sua borda branca cortada como uma renda e recebia no canto a chancela de assinatura em relevo, atestando a autoria daquele senhor de dedos amarelados, carcomidos pelas químicas laboratoriais.

Hoje, para um artista de vinte e poucos anos, frequentador das redes sociais, as fotografias de suas primeiras festas de aniversário, celebradas há menos de quinze anos, se transformaram em lâminas de matéria peculiar e cor já obsoleta, atestando a superação daqueles mecanismos de lembrança. Meus próprios registros já estão depositados sob uma pilha de obsolescências pré-pager, pré-fax, pré-polaroid, praticamente junto à prensa de Gutenberg.

Minhas fotografias de infância, mesmo aquelas coloridas, tiradas por meu pai com sua Laika portátil, não apenas registravam uma forma de vida, mas referiam-se a outra forma de usufruto e de manipulação do tempo na vida. Elas eram tomadas, ou melhor, tiradas. Tirávamos fotografias, como se tira alguma coisa de algum lugar, e nessa operação especialíssima algo se concretizava em nossas mãos e havia uma expectativa por essa materialização. Esse atributo conferia à máquina um poder único e ao seu produto um valor, um sentido específico. A fotografia não apenas registrava, mas, acima de tudo, destinava-se.

Seria preservada em um álbum, acolhida entre cantoneiras e folhas de papel de seda marchetado e ganharia uma legenda, explicitando a ocasião. Ou ainda, mais especialmente, ganharia uma dedicatória, seria entregue pessoalmente como um regalo ou enviada pelos Correios para parentes e amigos. Sendo originalmente a expressão de um vínculo afetivo, transferido para o suporte fotográfico como componente de narrativa, as dedicatórias perderam seu suporte tradicional, esvaziando suas destinações. Com elas expressávamos votos, cumprimentos, aludindo eventos e celebrações.

Compartilhávamos os destinos, expressando o desejo de presença, assinalando as relações e incluindo, como parte da vida, aqueles a quem eram dedicadas, como se disséssemos: A você que me conhece, dedico por me reconhecer.
Mas assim como os realengos, o circo de pulgas e a máquina datilográfica, as vitrolas, os filmes super-8 e mesmos os laserdiscs, essas fotografias foram superadas na normalidade das atualizações tecnológicas. Restaram como “aparelhos” sobrepujados, bugigangas colecionáveis engraçadas, beirando o inútil, e legaram, como resíduo mais inverossímil, suas embalagens, seus manuais, assim como suas dedicatórias. Suas regras de funcionamento.

O fato é que a mudança de mídias cria suas próprias relações. Certamente aquele conteúdo poderá ser alcançado por outras vias, mas isso se dará com outro fundamento e as perdas ocorridas nessa transformação serão visíveis e estarão expressas na dificuldade de compreensão dos resíduos correspondentes, essas regras de funcionamento.
Tal perda refere-se à mudança de sentido dos componentes originais de uma linguagem corrente, forçando a distinção de seus mecanismos. De alguma forma a dedicatória apaga-se do papel como fotografia que, por sua vez, ao se apagar no tempo, acende significados distintos para uma determinada massa original de pensamentos. Ali, entre eles, a memória e a lembrança passam a se distinguir como coisa mais específica. Como se deixasse de ser uma faculdade da memória, a lembrança se solidifica como seu souvenir. Uma materialização para o descarte, pois questiona as formas de sua fixação.

Um filme, assim como um livro, pode conter uma dedicatória de seu autor a alguém. Fatalmente ela será inserida no final, depois que o filme se encerrou, ou no começo, antes que o livro esteja plenamente aberto. Mas aí o que se dedica é a obra completa, e não uma de suas imagens específicas. É a coisa fechada, desprovida de movimento, que pode ser dedicada, pois o que ali se assenta é uma forma de corpo a ser completado pelo reconhecimento. É dessa forma que se constitui a materialidade do afeto, como coisa necessariamente estática.

A natureza morta, assunto da pintura, reveste-se de um caráter similar, modelando a memória para continuar a existir. O still life é a vida parada em pose, para que se construa a imagem. E, assim como o fruto que virá a amadurecer, a criança retratada atende a uma forma de vingança adulta, contra seu ímpeto de transformação. Transforma-se a própria fotografia em dedicatória, como se disséssemos: A você que não mais reconhecerei, dedico para me reconhecer.

Ocorria um movimento pendular entre fotografia e dedicatória que as fazia complementares. Imagem e palavra partilhando e alternando os sentidos daquilo que é incompleto. Mas nem tudo que se escreve sobre uma imagem funciona como dedicatória. A legenda do filme transcorre pela ação suposta, por acompanhar uma relação expressa em idioma variado. Dedica-se aquilo que é reconhecível, enquanto legenda-se o desconhecido.

Em Hermano Luz tais elementos ocupam o centro de interesse por despertarem uma forma de indiscrição, ativada pelo desejo de reconhecer origens e, simultaneamente, mover o artista em direção ao desconhecido. Das imagens de testemunho de seu curto passado ele migrou, rapidamente, para genéricos apropriados, de onde extrai e incorpora referências para a construção de suas pinturas. Os componentes são os mesmos, mas a desconstrução a que ele se dispõe distende os limites de manipulação, mantendo as possibilidades de leitura.

Seu trabalho se constrói como colagem da figuração e de seus fragmentos, permitindo-nos distinguir suas partes, dispersas no recorte de manchas quase indecifráveis. Da mesma forma as veladuras que amortecem planos inteiros ou o revestimento de cor sólida que fecha o cerco, concentrando o interesse em uma fração de foco. Ou as linhas de texto, que atropelam as imagens, interferindo diretamente sobre suas leituras. Ou mesmo a justaposição de telas, sugerindo uma lógica de associações manipuláveis como capítulos de um livro, cuja posição define a trama. São, todos eles, componentes reforçando uma mesma reconstrução, mas não se referem ao relato, pois não pretendem um status de narrativa objetivada.

A questão é a pintura, feita para acolher as leituras mais pessoais e imagináveis, para funcionar como superfície espelhada, onde a imagem tateia sentido na semelhança com a realidade, para encontrá-lo dentro do pensamento. Na escolha de seus assuntos, Hermano Luz elege o artista como aquele que se dedica e o trabalho como sentido único para sua dedicação.

Nas pinturas recentes as dedicatórias foram deslocadas como corpo anexo, como um reverso de moeda, a lembrar de algo que lhe pertence, aposto em seu verso e que por isso lhe é invisível. Algo muito pessoal, como uma mochila despregada de suas costas, mas que só pode ser vasculhada por contato. Reside nessa amplitude uma potência que caberá ao jovem exercitar, mas o vigor de sua investida já nos alerta, como se dissesse: Ao que não reconheceres, dedica-te para te conhecer.

Ralph Gehre

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Exposição: Lastlândia
Artista: Laerte Ramos

Lastlândia

“Ka-ta-pumba” era o nome da primeira exposição apresentada no MARCO em agosto de 2012 pelo artista Laerte Ramos. Dois anos se passaram e o projeto que teve início especificamente neste espaço cresceu e hoje ocupa uma das salas do Museu. As esculturas ganharam novas formas, novos soldados e armamentos formando ao todo um conjunto de 108 esculturas nesta divisão de batalhão.

A instalação de nome “Lastlândia” foi premiada pelo Edital de Artes Plásticas Marcantônio Vilaça 7˚ edição da Funarte/MINC, e como prêmio, além da mostra, o artista Laerte Ramos doa todo o conjunto instalativo para o acervo permanente do MARCO.

Lastlândia é uma instalação de cerâmica apresentada pelo artista plástico paulista Laerte Ramos. As esculturas são espalhadas no horizonte rebaixado do chão do espaço expositivo a fim de trazer uma percepção de uma vista aérea da composição que as esculturas apresentam ao espectador. As esculturas foram baseadas nos soldados de plástico e temas militares que são vendidos em saquinhos sortidos em “lojas de 1,99”. Estes saquinhos de brinquedos oferecem uma variedade de acessórios extras como barricadas, sacos de areia, galões de gasolina, cones, caixas, baús, assim como os próprios soldados em posições diversas, carros, jipes, tanques, aviões e botes.

O curioso destes brinquedos é que cada objeto tem uma relação de escala independente, além de colorações próximas umas das outras oriundas das massas de plástico distintas que foram usadas e misturadas em cada pacotinho posteriormente. Last & Lândia, seria o último encontro possível entre uma temática bélica misturada com um lugar lúdico onde crianças brincam deitadas no chão de pequenas batalhas brancas sem projéteis reais, pólvora, fumaça e explosões. Tchi-bumm, Ka-ta-pumba e Fsssssss-kapow são os únicos sons balbuciados pelos lábios de quem brinca com fogo que não existe, com explosões fantasmas e com soldados imaginários que mesmo em guerra, encontra seus inimigos e suas armas dentro do mesmo saco, o de 1,99.

A exposição é rasteira, ocupando o chão de uma maneira espalhada e organizada, a fim de se perceber um acampamento armado com tendas e soldados em alerta, prontos para combate. As esculturas de cerâmica apresentam-se por sobre uma fina camada de areia, demarcando um território de transição movediço, grão por grão, que unidos, sustentam o peso de um lado da batalha. As esculturas são de cerâmica, material frágil escolhido pelo artista devido a sua plasticidade e inúmeras possibilidades de se conseguir efeitos que se assemelham ora ao próprio plástico dos brinquedos que deram origem as formas finais, ora ao vidro, o couro, a lona, o metal, o que muito satisfaz o artista em suas pesquisas e projetos que visa estudar e utilizar a argila e a cerâmica como a verdadeira massa de estudo em suas pesquisas. Esta massa, que conta a cada aperto e a cada manuseio um conto, e fica a espera de espectadores para perceberem suas superfícies e entenderem as suas estórias e suas batalhas.

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Exposição: Deixa…
Artista: José Abilio Escalante

“Deixa”, uma palavra simples mas ao mesmo tempo complexa… aos olhos das agitadas pessoas uma palavra qualquer, para um apaixonado da vida um pequeno segredo de como vivê-la…frente aos olhos do artista um conceito profundo.
“Fazer” procura infringir, deter, reter, modificar, trocar… em poucas palavras, uma preocupada ação nesta infinita realidade.
“Deixar” é o que murmura a alma…permitir que o universo continue e permaneça expressando-se.
A arte é o exercício do deixar e permitir que as cores, os traços e as ideias expressem por meio do artista tal como são, sem serem julgadas e se escrevam no acolhedor livro da vida. Deixar é entender que a arte chega como uma brisa que nos visita e logo se vai, um instante, um presente, algo irrepetível.
Não se pode acumular arte sem deixar que a arte também se vá, transforma-se e se despede sem egoísmo…deixar ir é aprender receber o que vem.
Deixar não é abandonar; o certo é abandonar-se (a si mesmo) e deixar que aconteçam os presentes da vida…
Deixar é aceitar, permitir…deixar ser
Deixar é parar de parar.
Deixar é aceitar o efêmero com sabedoria…
Deixar é abandonar o medo e entregar-se
Deixar é confiar
Deixar …mais que um vazio é uma aceitação.
Deixar é aprender a despedida deste instante e deixar que chegue o seguinte.

Este texto fundamenta-se na filosofía da vida de José Abilio Escalante Ribeiro
(inspirada pela canção “deixa” do poeta brasileiro Vinicius de Moraes y Baden Powell)
Interpretado por Arturo Rojas Yanguas (psicólogo, músico e ator), texto original em espanhol
San José de Chiquitos – La Paz, Bolivia 2014

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