Governo do Estado de Mato Grosso do Sul

Marco – III Temporada de Exposições 2013

Agosto a Outubro

Exposição: Pinóquio – 64 originais
Artista: Alex Cerveny

A alquimia de Alex Cerveny é uma arte filosófica que busca ver o universo de outra forma, encontrando nele seu aspecto espiritual e superior, passando do microscópio das lâminas empoeiradas ao universo da imaginação humana. Íntimo e universal, o trabalho de Alex Cerveny demonstra mais uma vez que o artista não se perde mesmo mudando de direção. Escolhendo uma técnica de gravura do século XIX, ele soube minuciosamente achar seu caminho, reencontrando seus territórios imaginários e seus personagens recorrentes.
No mesmo livro A psicanálise do fogo, citado acima, Bachelard diz:

“O que sabemos do fogo é que não se deve tocá-lo. O problema do conhecimento pessoal do fogo é o problema da desobediência ágil. A criança quer fazer como o pai. Longe do pai e tal como um pequeno Prometeu lhe rouba o fósforo. Podemos classificar desta forma, na categoria de Complexo de Prometeu todas as tendências que nos levam a querer saber tanto quanto nosso pai, mais do que nosso pai, mais do que nossos mestres… O Complexo de Prometeu é o Complexo de Édipo da vida intelectual.”

Alex desobedeceu. Mudando de médium, abandonou a categoria da pintura por um tempo e desenvolveu com muita agilidade uma nova forma de expressar a sua arte. Atravessando o deserto da fuligem, ele nos convida a ver suas miragens pessoais que brilham no escuro.

– StéphaneMalysse, trecho de Desenhando na fuligem: As miragens fotográficas de Alex Cerveny, 2008
Chamam a atenção as ilustrações de Alex Cerveny, híbrido de gravura e fotografia. Realizadas em cliché verre, técnica francesa contemporânea à criação do clássico infantil, resgatam a tragédia e o realismo da alma italiana do personagem. “É um negativo feito a mão. Surgiu da vontade dos artistas de pesquisarem as possibilidades da fotografia que estava surgindo”, afirma.

A obra marcou a infância do artista. “Ao longo da história, Pinóquio vai revelando características humanas, boas e más, com as quais a gente se identifica. Aprendemos desde pequenos como ele, mas continuamos repetindo os erros… Por isso é comovente reler este clássico.”

– Deborah Giannini,trecho de Bonequinho de Luxo. Revista Brasileiros, jan/2012.
“Tem até um componente metafórico nessa história [no uso do clichéverre], porque é o tipo de técnica que não permite erros, não tem volta”, conta Cerveny, aludindo ao caráter do mentiroso boneco de madeira criado por Gepeto.

– Antônio Gonçalves Filho, trecho de Pinóquio: Nova edição traz texto integral, Estado de São Paulo, 20/dez/2011.

pinoquio1

Exposição: Conexão Dual – Diálogos Gravados
Artistas: Arlete Santarosa e Lana Lanna

Foi pensando nas possibilidades que a gravura pode oferecer estimulando o pensamento e o debate, que as artistas, Arlete Santarosa e Lana Lanna, iniciaram um trabalho em 2006 travando um diálogo pessoal.
Aliando a técnica de xilogravura de Arlete e de metal de Lana, as artistas foram estabelecendo conexões gráficas entre seus percursos criadores. A mostra é um conjunto de imagens entre o modo particular de cada uma se relacionar com a vida e com a arte.
Como ponto de partida para o diálogo, foram usadas gravuras que, trocadas entre as duas, serviram como referência para leitura e interpretação na sequência de uma nova imagem. Sempre respeitando a individualidade de cada uma.
A mostra Conexão Dual, Du, dois que somados à inicial dos nomes de Arlete e Lana, representa a síntese da sintonia do trabalho entre elas. Uma feliz coincidência proporcionada pelo significado da palavra.
A exposição também é uma homenagem do MARCO à Lana falecida em 2011 e que participou ao lado de Arlete com esta mostra em 2008, agora, acervo do MARCO, doado pela família da artista e sua parceira. O museu no cumprimento de sua função como difusor da arte do estado, apresenta este recorte do trabalho das artistas nesta 3ª Temporada, para que novos diálogos continuem sendo gravados entre o público.

Patrícia Aguena
Arte educadora do MARCO

 

Exposição: Admirável Mundo Novo
Artista: Lula Ricardi

Em 1931 o inglês Aldous Huxley de forma ficcional criou sua obra mais importante e conhecida; o livro “Admirável Mundo Novo” narra uma civilização de humanos que eram concebidos iguais e controlados desde sua geração por um regime totalitário. Dividida em castas, essa sociedade era excessivamente ordenada e mentalmente condicionada em prol de uma aparente harmonia coletiva.
Na obra o autor mostra uma fábula futurista e desumanizada cada vez mais parecida com os dias atuais. Vivemos tempos difíceis em um mundo cada vez menos preocupado com o equilíbrio e o pensamento humanista, que estabelece o consumo e a massificação como condição de existência e salvação, buscando a padronização e a ordenação da sociedade através de grupos sociais, econômicos ou ideológicos.
Em meio a um pensamento escalonado de tudo ao entorno, padrões e corpos são produzidos como números e atirados ao “super-mercado”, uma paródia viva das previsões anunciadas, no trajeto, a pseudo-máquina de confeccionar pessoas, sensos éticos e bens se retroalimenta e cada vez mais empurra o mundo com aparatos quase sempre tortuosos e opressores.
Nessa reprodução infinita, as contradições ao emparelhamento surgem nos conflitos, nos dilemas pessoais e no próprio sentido existencial quando a morte nos leva rumo ao desconhecido. Aqui a homogeneidade se concretiza; todos morremos e viramos matéria decomposta.
A exposição busca abstrair essa massificação e o resultado dessa lógica estabelecida, ao mesmo tempo que somos os vetores ativos do processo, somos também proporcionalmente a matéria atingida e sufocada, recebendo essa diluição de nós mesmos. Referenciado pelo autor e sua obra escrita no século passado, tenta se criar uma ponte abstrata entre a ficção futurista e a realidade.

Lula Ricardi

Exposição: Estruturas Urbanas – Geometrias
Artista: William Menkes

O mosaico visual expresso em diferentes formas no cotidiano urbano sempre serve como pretexto para inúmeras inquietações e propostas artísticas. Formas, cores, texturas são elementos que reforçam a função e a presença estética das coisas dispostas nos espaços das cidades.

Dar novos sentidos e significados para o que nos cerca é exercício constante do ato criativo. Arte espelha a cidade, espelha o outro. Arte espelha desejos. E o desejo de somar ou subtrair valores para o que se encontra estabelecido provoca no artista criador a necessidade de rever e reinterpretar sutilmente o mundo.

Os trabalhos dessa exposição surgiram do interesse de buscar em determinado objeto trivial uma potência estética para transformá-lo em assunto de arte. Assim, William Menkes se apropriou do desenho geométrico das estruturas de torres metálicas espalhadas na cidade para elaborar suas dinâmicas rítmicas usando os recursos de linguagem da gravura em metal, explorando e variando o espaço perspectivo no posicionamento do olhar de baixo para o topo dessas torres.

A série Geometrias exemplifica no seu desenvolvimento a capacidade de se perceber nas coisas banais um valor não evidenciado, narrativa não mencionada, importância não estabelecida. Trata-se de um conjunto de gravuras que representa fragmentos desse elemento de avanço tecnológico da engenharia – torres para telecomunicação – cuja presença, numa interpretação poetizada, esboça desenhos geométricos em suspensão no céu.

Ideia que foi o ponto de partida para William Menkes. A elaboração das gravuras se origina da observação do desenho dessas estruturas. Assim, as composições experienciadas resultam do cruzamento vertical, horizontal e diagonal de linhas suaves e densas, em movimentos visuais que aproximam e afastam planos, definem profundidade e extrapolam os limites da imagem se projetando entre as tramas do papel.

Um motivo aparentemente simples desenvolvido com rigor e competência. Essa primeira mostra individual sinaliza um bom início de percurso de produção artística de William Menkes, uma das oportunidades que certamente contribuirão no refinamento e na mobilidade de seu pensamento criativo.

Rafael Maldonado