Governo do Estado de Mato Grosso do Sul

Marco – II Temporada de Exposições 2014

Junho a Agosto

La patria puede contar conmigo
Daniella Origuela

Cores vibrantes e ao mesmo tempo desgastadas. Dualidade imagética que exprime o sentimento de um país: Cuba. No esporte, onde corpo e espírito estão presentes, é possível entender um pouco da alma cubana, aqui neste ensaio fotográfico colocado em preto e branco e em cores.

O boxe cubano, conhecido pelos grandes campeões que criou, é uma profissão de destaque que leva ao atleta a possibilidade de sair do país e conhecer o mundo. Para manter a linhagem, apenas ex-lutadores podem abrir escolas preparatórias de boxe. Incentivados pelos pais e pela própria história do país, as crianças vão à luta.

Na famosa escola de Rafael Trejo, um professor ex-campeão de boxe, localizada em um antigo bairro central de Havana, as crianças não se importam em serem observadas por estrangeiros, como também não se importam com a precariedade do ambiente, com as luvas rasgadas, com as roupas batidas. Espontaneamente demonstram que já desde cedo o vibrante e o desgaste caminham juntos, que o desapego à materialidade está carregado de memória, de história e guarda para sempre o valor dos nomes dos grandes campeões.

Daniella Origuela sempre foge do distanciamento optando por lentes mais curtas para tentar a aproximação e o diálogo com o recorte que mais lhe interessa: a figura humana encarnada na infância. Em uma viagem a Cuba em 2011, tenta traduzir a visão infantil dentro do boxe cubano. Vivenciando alguns dias com as crianças na escola, busca entender porque criar escolas de boxe é uma forma de manter a história viva, mas não menos lúdica, pois é pelo boxe que elas conhecem o mundo.

(Bruna Queiroga)

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Exposição: Estruturas Imaginárias
Artista: Coletiva de São Paulo

“No espelho, eu me vejo lá aonde não estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície; eu estou lá, lá aonde não estou, uma espécie de sombra que traz de volta minha própria visibilidade, me possibilita ver lá aonde estou ausente.”Michel Foucault , De Outros Espaços (1967).

O Filósofo Francês Michel Foucault se refere no texto “De outros Espaços” ao reflexo do espelho como uma evidência concreta da existência paralela ao mundo material do plano das idéias, ou da metafísica, e que somente através de seu reconhecimento podemos assimilar a realidade como um todo, já que sua significância parte deste lugar imaterial, de onde provém as idéias, pensamentos e suas estruturas imaginárias.

O ato de desenhar tem em seu cerne a mesma dualidade que o espelho: parte de uma ideia, mas se debruça sobre a matéria, e o produto final que observamos é como o reflexo, uma espécie de sombra do que o gerou, vestígio do momento específico em que foi concebido.

O Título da exposição serve como símbolo para o limite entre estes dois mundos paralelos e simbióticos, uma investigação em relação ao que habita e do que são constituídas as pontes entre a realidade e a metafísica.
Estruturas imaginárias são continentes onde pensamento e ação se fundem em uma só manifestação, ponto comum na pesquisa de cada um destes 14 artistas que investigam, cada qual a sua maneira, o que habita os limites entre o real e o fantástico, o figurativo e o abstrato.

Fernando Quitério

 

 

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Exposição: Mais para o Centro
Artista: Coletiva de artistas da Região Centro-Oeste

O conjunto de obras artísticas que compõe uma coleção ou um acervo possibilita para a ação curatorial maneiras diversas de se articular o conhecimento e a interpretação estética que damos às obras de arte.

Efetuar novas avaliações para as obras, reorganizando-as interessadamente a partir de um critério de seleção, é um exercício de conexão, de experimentação e especulação que permite o reposicionamento da condição narrativa que essas obras assumiram inicialmente.

Mais para o centro, título dessa exposição, propõe apresentar alguns dos artistas que estão ou já produziram nos Estados do Centro-Oeste brasileiro, sem a pretensão de se querer representar uma visualidade característica que defina essa região, visto que, apesar de uma proximidade geográfica, cada lugar possui e produz elementos de cultura bem peculiares.

Assuntos e interesses diversos são adotados na construção de discursos particulares que se apropriam da condição humana para o estabelecimento das complexas relações culturais. Tempo, memória, poder, lugar são alguns dos elementos articuladores das práticas artísticas aqui reunidas e revelam o amplo campo expressivo dos artistas que trabalham em locais que ainda não foram plenamente inseridos no roteiro do sistema da arte no país.

O propósito de ações dessa natureza não traduz um sentimento de menos-valia ou pretende reafirmar uma condição de isolamento. O que se quer evidenciar é a necessidade de reposicionamento da cartografia cultural brasileira, deslocando a atenção de instituições que determinam as regras das políticas culturais, oficiais ou não, em direções periféricas, e, nesse sentido, desviando mais recursos e interesse para a produção artística do centro do país.

Essa mostra confirma a diversidade da arte brasileira. Não configura uma visualidade singular do Centro-Oeste, mas traduz a identidade plural de artistas que produzem reflexões e questionamentos em consonância com o que se vê frequentemente explorado nos circuitos hegemônicos.

No centro do país encontramos obras significativas produzidas por Ana Ruas, Beto Lima, Camila Soato, Carlos Nunes, Dalton Oliveira de Paula, Divino Sobral, Edson Castro, Evandro Prado, Genésio Fernandes, Gervane de Paula, Helder Rocha, Jorapimo, Humberto Espíndola, Lú Sant’Anna, Marcelo Solá, Mercedes Barros, Ovini Rosmarinus, Priscilla Paula Pessoa, Paulo Rigotti, Rafael Maldonado, Vânia Pereira, Virgílio Neto, Zilá Soares, entre tantos outros.

Os trabalhos escolhidos integram o acervo do Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO) ou pertencem a coleções particulares, em Campo Grande, e foram cedidos para complementar a proposta conceitual que buscou evidenciar a autonomia das investigações estéticas dos artistas aqui reunidos, sem que se precise categorizá-los pela realidade ou pela geografia cultural que os envolvem.

Rafael Maldonado
Curadoria, maio de 2014

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Exposição: Cultura X Natura
Artista: Cássio Leitão

Motivo: Desastres – A arte recente de Cássio Leitão
por Juliana Monachesi

Os desastres naturais, na série recente de pinturas de Cássio Leitão, não são um tema propriamente dito. Funcionam mais como motivo, como subterfúgio para pintar essas formas um tanto disformes e essas cores enevoadas, senão soturnas de tudo. O artista temporão – Cassio pinta desde sempre, mas há dois anos apenas é que decidiu assumir de vez a carreira – parte de fotografias de catástrofes para compor as telas, mas elege predominantemente ângulos fechados, que fazem o olhar patinar pela superfície da pintura, sem saber qual a escala dos destroços. Contribui para a sensação “deslizante” o fato de que o artista carrega nas tintas e não se sente, em momento algum, preso ao assunto, apegado a verossimilhanças.

A escolha deste assunto, então, parece sugerir um desejo de abstração. Afinal, poucas formas são mais indefinidas do que a de escombros de construções arrastados pela força da água e depositadas sem hierarquia nenhuma uns em cima dos outros a milhares de quilômetros do local original onde se erguiam antes do desastre – o furacão Katrina, em New Orleans, e o tsunami no Japão estão as catástrofes naturais retratadas. Reforça-o (o suposto desejo de abstração) a indefinição entre pincelada e desenho nas pinturas da série. Não há vestígios de desenho anterior na tela, mas as formas construídas apenas com a cor são, eventualmente, conectadas por uma pincelada unificante, que parece contorno e remete a desenho.

Finalmente, vale notar nesta série que, de certa maneira, inaugura a carreira de artista profissional de Cássio Leitão, a paleta tipicamente paulistana das pinturas, sobretudo as três últimas, com tons rebaixados e ausência de preto. Além, claro, da opção do artista por, em certas telas, deixar visível um fragmento de uma obra anterior que estava por baixo da pintura final. Segundo o próprio Cássio, não lhe interessa partir do zero quando vai iniciar uma tela. O procedimento aponta, a meu ver, uma outra filiação relevante: a de artistas apropriacionistas e colagistas que recusam o espaço supostamente neutro do cubo branco, assim como da tela branca. Um bom começo para uma trajetória longa que, agora, deslanchou!

 

 

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