Governo do Estado de Mato Grosso do Sul

Marco – I Temporada de Exposições 2013

Abril a Junho

Exposição: Dominus Tecum
Artista: Evandro Prado

Desde o início de sua trajetória artística, o sul-matogrossense Evandro Prado sempre buscou uma aproximação com o universo que a igreja instituiu como sagrado. Essa relação que ele vem estabelecendo com o imaginário religioso propõe de maneira irônica uma desconstrução e ressignificação das imagens sacras que algumas sociedades, principalmente a brasileira, tem como símbolo de respeito e devoção. Prado utiliza a igreja e suas marcas construídas ao longo da história para estabelecer uma crítica no âmbito da sociedade contemporânea.

Agora ele reúne e apresenta cinco novos trabalhos preservando essa temática. Intitulada Dominus Tecum, a exposição compreende a amplitude do pensamento artístico desenvolvido por Prado nos últimos anos. Aqui ele se apropria de várias linguagens para formar uma espécie de complexo à subversão do sagrado. Trata-se de um espaço múltiplo composto por vídeos, escultura, fotografia e instalação.

Em Ruína, a imagem do corpo de cristo abandonada dentro de um caixão numa igreja vazia. Em Missões, dois vídeos mostram a mesma escultura de cemitério balançando uma espécie de sudário, com um coração bordado. No polêmico Sede Vacante, Prado apresenta a escultura de Joseph Ratzinger saindo da parede como se fosse um troféu de caça. Em Construindo Paraísos, uma isntalação em formato de cruz latina, feita a partir de tijolinhos, um desenho em negativo, nos remetendo a uma não construção. E por fim a obra que leva o nome da exposição. Prado construiu um lampadário feito a partir da justaposição de imagens de santos que ficam de cabeça para baixo em Dominus Tecum.

Dono de uma perspicácia única, o rapaz transforma seus devaneios em crítica social e política, quase sempre introduzindo os espectadores dentro de suas ironias, e potencializando, assim como Brecht fez com seu teatro épico, o ideal de que a obra de arte não é apenas um deleite passivo, mas um acontecimento em que abandona-se a postura de simples admirador, para transformar-se em sujeito da obra. O homem, portanto, é exposto e tem a chance de reavaliar-se ou continuar no obscurantismo do pensamento, revelando, involuntariamente, seu estado de alienação.

Ao se aproximar do pensamento cristão para questionar a sociedade, Prado adquire uma relação com a filosofia nietzcheana. Para Nietzsche, um dos principais críticos dos cristãos, essa vertente religiosa ensina que o reino de Deus está nos corações dos homens, mas traiu essa intuição fundamental quando transformou o Reino em um “outro mundo”, um universo mais além. Quando se desloca o centro de gravidade da vida no ‘mais além’, o que para Nietzsche é o nada, tira-se da vida o seu centro de gravidade.

Nietzsche considera que, além de implantar no homem a ideia de pecado, pensamento que o enquadrou num estágio de negação da vida, a noção de reino minou de sentido todo e qualquer valor natural que pode garantir o surgimento de uma vida ascendente. Ele considera que essa doutrina corrompeu e condenou todo olhar sadio sobre a existência. O homem passou, então, a não viver o agora, com a esperança de uma vida eterna e perfeita no paraíso.

Prado resignifica o sagrado por meio de sua obra e propõe um diálogo que ultrapassa a contemplação estética para, ironicamente, atingir o existencialismo humano. A fantasia se encarregando de suscitar conflitos e sentimentos genuinamente verdadeiros. Uma obra que se revela essencial, porque ao ser posicionada além do olhar, gera reações interiores que, posteriormente, são expostas em sinais de espanto, dúvida, repulsa ou aceitação. Resposta ao que a arte exige quando é intitulada como tal: atuar como poder transformador em seu receptor que, impactado, também emite.
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Exposição: O Relógio Quebrado
Artista: Henrique de França

Para remontar o relógio desmantelado (…) o horologista examina uma engenhoca aberta que parece retirada de um conto de fadas; as peças avançam e retrocedem como uma máquina preguiçosa num sonho. O tempo do universo não pode ser marcado de tal forma. Um apetrecho tão frágil e torto só poderia contar as horas fantásticas de fantasmas ingovernáveis.(…)

De “O Horologista Lógico”
Reasonable Horologist
Reverendo Kenner Davenport, 1723

O tempo dos homens e o tempo de Deus. Chronos e Kairos. O primeiro, imutável, indiferente, decidido e avante; o segundo, permeável, vacilante, volúvel e traiçoeiro. No trânsito entre ambos, um avança sobre o outro, nos deixando ao revés da balança que pesa nosso estado em relação às circunstâncias. Há momentos em que o salto é abismal e sentimos tal incompatibilidade de forma mordaz, como se estivéssemos sob o controle de fantasmas ingovernáveis direcionando os ponteiros de nosso relógio de modo frívolo e irresponsável, ou com uma insistência objetiva e cruel em mantê-los em determinadas horas do nosso calendário.

É quando percebemos as intempéries do nosso tempo particular, alheio ao decorrer do mundo e suscetível ao comando dos nossos torpores íntimos. Como um relógio quebrado, que teima em funcionar, ficamos à mercê de um contratempo rodopiante e descabido que paira sobre a realidade, como um tapete mágico que ignora a lógica e nos apresenta, à distância, o mundo segundo a percepção da nossa memória.

Os desenhos aqui apresentados discorrem sobre este estado letárgico, que nos desprevine e nos coloca no ponto central (ou tangencial) da superfície humana. E assim como uma página não escrita por descuido ou negação em uma passagem há muito passada para trás, eles apresentam incompletudes somáticas que constituem o vazio materializado em um branco massivo e sufocante, ou em uma rajada de tentativas nulas de reedição de uma tomada gasta, acumulando manchas como buracos negros em um filme cujos atores não podem mais reinterpretar seus papéis.

As cenas muitas vezes são dadas no limiar entre o dia e a noite, quando sombras de postes de luz e árvores esticam-se e deitam numa última tentativa de se prender à luz, a mesma luz que encara os personagens, os cega e os desnuda perante a própria melancolia associada à esta hora do dia. Como um diafragma aberto por tempo excedente, o foco é exposto a uma intensa claridade, quase fazendo desaparecer as figuras, dissolvendo-as no leite do papel. Cortes, interrupções, pausas e enquadramentos desajeitados povoam o emaranhado de frágeis retrospectos da existência, cabendo a nós fazer o apanhado dos resquícios espalhados, peça a peça, ou simplesmente abandoná-los na recusa de remontar um fantasma monstruoso.

Jovens atravessam rituais de passagem cristãos, homens perecem sob o sol, casas se desfazem, crianças se vêem longe do lar, fugas são arquitetadas… Como num jogo de xadrez, os personagens se entrelaçam, se cruzam e se desdobram numa orquestra conduzida ao som de um metrônomo ora baixo, ora ensurdecedor, ora correto, ora desregulado, costurando uma trama cheia de nós, remendos e buracos. Nas nossas horas mais frágeis, o tempo da nossa memória impera, independente da realidade ou de nós mesmos, e dá as cartas, dá o tom, dá os passos.

Henrique de França

Exposição: Museu de História Ficcional
Artista: Yara Dewachter
“Museu de história ficcional”

Se esperamos viver não só cada momento, mas ter uma verdadeira consciência de nossa existência, a maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado para as nossas vidas. A compreensão desse significado, que não é concreto, mas efêmero e transitório, não é subitamente adquirida numa certa idade, nem mesmo completamente alcançada na maturidade; é uma busca infinita, construída por pequenos passos a partir do começo mais irracional.

Está nas raízes da infância, etapa da vida tão explorada com o surgimento da psicanálise, o prenúncio de tudo que será estabelecido posteriormente. É desse ambiente primitivo e arquetípico, em que a consciência do mundo começa a ser estabelecida e passamos a experimentar a realidade cotidiana, que a artista plástica Yara Dewachter propõe uma reflexão ousada a respeito de uma questão inerente à pós-modernidade: a nossa relação com o mundo diante da influência da indústria cultural e da produção midiática.

Mais que isso. Ela procura e encontra uma maneira de nos fazer pensar sobre os limites positivos ou nocivos da realidade e da fantasia diante do enfrentamento da vida. Sem nos dar a resposta e sem estabelecer uma crítica direta às possibilidades que apresenta, Yara nos pergunta: O entretenimento enriquece ou entorpece a experiência humana? E mais: Se ele nos afasta do sentido da dor, o que seria de nossas vidas sem essas gotas de felicidade temporária? Estaríamos sendo privados da vivência concreta e, por vezes, angustiante que é a vida? Aqui não interessa a conclusão, mas que você pense a sua experiência particular.

Ao adentrar o “Museu de história ficcional” o nosso imaginário é confrontado. Personagens que nos remetem a vários períodos da indústria de desenhos animados, produzidos por diversos países e culturas, tanto obras clássicas como contemporâneas, são como que afundados até a cabeça em uma estrutura de cera. Yara consegue transpor a intensidade da ação em uma obra estática. Torna-se, dessa forma, impossível não pensar no indivíduo que afunda os personagens, ainda que a artista não esteja fisicamente presente. Seja uma serial killer, ou uma simples colecionadora de bichinhos indefesos, ela consegue habitar o espaço de maneira ativa. Trata-se aqui de uma obra que ultrapassa o sentido estético.

O principal questionamento da artista beira os debates da filosofia existencialista e da estética do absurdo: Estamos buscando formas de viver uma realidade mascarada para esquecer que as relações e a vida também nos oprime? É de uma maneira perspicaz que ela se apropria do universo infantil para questionar a ideia de felicidade aparentemente instituída no mundo dos personagens animados. E não teria melhor período da vida para escolher como abordagem.

É o momento das primeiras perguntas, que emergem de maneira efusiva e conflituosa. Como posso ter o alívio de todas as pressões? O que fazer para realizar os meus desejos? Eu poderei vencer todos os meus competidores? De uma maneira certeira Yara nos apresenta um problema. Existirá sempre uma solução e um final feliz assim como o dos personagens animados? Apesar das doses de fantasia, essas produções não seriam uma alternativa saudável para o caos em que vivemos, ajudando a dar um sentido mais doce para as nossas trajetórias? O filósofo alemão Arthur Shopenhauer postulou que “viver e se relacionar é sofrer”. Estamos falsificando o nosso sofrimento em nome de uma felicidade inatingível?

Renato Joseph

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