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Espetáculo “Sala de Estar” aborda as várias nuances da fragilidade humana

  • 27 abr 2016
  • Categorias:Geral

 

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Campo Grande (MS) – O espetáculo “Sala de Estar” atraiu cerca de cem pessoas ao Marco (Museu de Arte Contemporânea) na noite desta terça-feira (26/04) que assistiram a uma peça intimista cujo principal tema foi a fragilidade humana nas diversas situações que cada um passa em sua vida, seja nas relações amorosas, familiares e a mais complexa delas: a relação consigo mesmo, bem como dos abusos sofridos.  O grupo paulistano Sobrevento, comemora 30 anos de existência, com foco no teatro de objetos. A companhia que já passou por Ponta Porã e está em Campo Grande para mais duas apresentações hoje e amanhã com a peça “Só”.  O grupo foi contemplado com Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e recebeu o apoio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

 

Um cenário carregado de tons fortes, onde os objetos se tornavam o centro das atenções por estarem impregnados de história dos seis personagens que interpretaram um monólogo cada. As esquetes aconteciam de forma itinerante, dando dinamicidade na peça. Outro ponto a se destacar foi a interação dos atores e atrizes com o público dando um tom mais informal ao espetáculo.

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Foto: Daniel Reino

 

 

Foram apreciar a peça seis pessoas com deficiência visual, que fazem parte do Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual de MS (CAP-DV) da Secretaria Estadual de Educação acompanhadas da coordenadora pedagógica Cândida Abes e  do professor de Artes, André Tristão, que explicou como é ser o olhos do espetáculo para aqueles que não enxergam, “a gente tem que tomar o máximo de cuidado possível para conseguir explicar e dar nuances daquilo que está acontecendo no momento. Se a palavra não oferece imagem para mostrar o que a pessoa está fazendo, eu tenho que falar. Antes a gente faz um reconhecimento do cenário, e eles com toda a sua potência, tiram suas próprias conclusões”.

 

Tristão também falou da necessidade da acessibilidade no teatro, “a arte tem que ser acessível a todos, independente da deficiência que ela tenha. Por  que não trazer um deficiente visual assistir a um espetáculo?  Por isso o espetáculo deve vir acompanhado de audiodescrição”, aponta. “Se tivesse mais acessibilidade, com a audiodescrição teria sido melhor, mas mesmo assim conseguimos interagir com o espetáculo”, disse a  pedagoga também deficiente visual,  Eva Ortiz. Já Carolina Maciel, produtora rural,  gostou da peça, ”é um espetáculo  diferente, por ser itinerante  e a gente com a deficiência visual acaba absorvendo mais, com mais intensidade”.

Foto: Daniel Reino

Foto: Daniel Reino

Maria de Lurdes, atriz do grupo Luzes (companhia formada por pessoas com deficiência visual) acabou se surpreendendo com o espetáculo, “ foi uma coisa diferente, esperava que a gente fosse entrar no  teatro sentar e esperar a peça, mas toda essa movimentação foi maravilhosa”.

 

Liana Yuri está na Sobrevento há cinco anos e é primeira vez que circula com a companhia e disse estar satisfeita em participar de um grupo com a maturidade que o Sobrevento adquiriu “o  grupo sempre abriu a portas  para quem quisesse fazer um  trabalho, eu entrei para a companhia por meio de uma oficina e o grupo é de uma abertura e  generosidade muito grande”, frisa Yuri.

Foto: Daniel Reino

Andrea Freire secretária-adjunta da Secretaria de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação (Sectei) foi uma das fundadoras do grupo Sobrevento, no qual atuou por sete anos, falou da importância de se trazer para o Estado um grupo com a qualidade do Sobrevento “um teatro sofisticado, muito bem feito, cuidado e a gente acabou  os trazendo para que o público de Campo Grande pudesse conhecer esse tipo de teatro no Estado que é muito raro”. A respeito da longevidade do  grupo, Freire atribui  “a  muito trabalho, foco  e  de um sentimento  de que o coletivo demanda  muita  generosidade e a um trabalho de pesquisa contínuo”. Também falou do apoio que recebem do governo de  São Paulo ,“Há muitos anos que são contemplados com a Lei do fomento ao teatro”, ressaltou Freire.

 

Hoje e amanhã (27 e 28)  às 19h acontece o espetáculo “Só”, que irá tratar do tema solidão. A peça será apresentada no Marco (Museu de Arte Contemporânea de MS). A entrada é um quilo de alimento não perecível e um litro de leite e os ingressos devem ser retirados com  uma hora de antecedência antes do espetáculo.

Confira a seguir um bate-papo com diretor do Grupo Sobrevento, André Luiz Cherubim;

Qual é o sucesso da longevidade do Sobrevento?

Olha, eu acho que nós somos um grupo que  vive realmente de um fazer diário cotidiano. Então não é a construção de um espetáculo de um dia, mas são espetáculos que ficam em repertório, então eles se mantêm. Até  hoje nós fazemos um espetáculo cuja primeira parte foi feita em 1986.  O outro espetáculo de 19991, a gente fez a semana passada, então vamos fazendo espetáculos mas eles não vão morrendo e mantendo esse repertório nós conseguimos viajar, participar de festivais, por exemplo um festival da Espanha que nos viu há sete anos, nos chama novamente, por que o espetáculo continua vivo.  Há solidez e constância. A nossa relação com o teatro é de casamento, há uma constância, o dia a dia, há as alegrias, dores, brigas e sobretudo o que nos mantêm esse casamento é o amor pela arte, pelo teatro. Temos uma crença na capacidade expressiva do teatro na importância da falta de importância dele. A riqueza do teatro está na sua efemeridade, fragilidade e na sua sutileza e aí é que está a beleza do teatro e não constância, não na força dele e não do impacto dele.

A peça “Sala de Estar” trata de forma sutil vários temas, qual deles você destacaria?

Sobretudo  a  fragilidade. A fragilidade do ser humano, das pessoas, porque eu acho que nós negamos muitas vezes essa  fragilidade e isso nunca traz coisas boas, quando a gente acha é valente, que manda, quando a gente acha que está certo das coisas, a gente precisa reconhecer nossa fragilidade e a nossa pequenez.  É isso que o espetáculo fala, do frágil que nós somos.

O espetáculo está sempre em construção?

Sim, não é possível você manter um espetáculo vivo se só repeti-lo. É preciso estar sempre mudando, é preciso dizer coisas daquilo que você é hoje.  O teatro guarda um mistério. Por isso que nunca um espetáculo é igual. Esse espetáculo é mantido pelas mudanças que nós sofremos. É isso que mantêm vivo o teatro por muito tempo. Esse espetáculo foi construído das histórias, dos segredos de cada um dos atores. Mas a força dele está no público, dentro do público, quando o público se reconhece na sua própria fragilidade. Esse espetáculo de teatro de objetos que deflagra várias histórias que eles guardam. Contamos a história de cada objeto, expondo-o, contamos a história por causas dos objetos.

Essa é uma companhia que já percorreu vários países, como é a experiência de apresentar um espetáculo no exterior?

Olha, é isso que nos faz voltar muitas vezes a Campo Grande, a Mato Grosso do Sul, porque gostamos de falar para o nosso público. É muito bom poder viajar, conhecer novas culturas, muito enriquecedor isso, conhecer outras coisas. Mas o teatro forte é aquele que você se entende verdadeiramente com seu público. Todo tetro é um encontro, mas quando esse teatro acontece num país estrangeiro, numa vivência diferente da nossa, de outras idiossincrasias, de outras maneiras de ver o mundo, outras crenças, acaba que você não tem um controle do que está acontecendo. Então já aconteceu conosco de levarmos um espetáculo para a Irlanda e fazer um sucesso enorme e três dias depois estar na escócia, que é ao lado da Irlanda, que parece ser o mesmo povo, mas não é, e não termos muito sucesso porque o senso de humor nesses países são diferentes. Aqui no Brasil já estamos acostumados com aplausos efusivos, lá fora é diferente.

Como é comemorar 30 anos do Grupo Sobrevendo aqui em Campo Grande?

É um orgulho muito grande, porque a gente tem uma afinidade com a cultura sul-mato-grossense. A primeira coisa que a gente fez quando chegamos foi comprarmos tereré. E também temos uma afinidade muito grande com artistas, os trabalhadores da cultura de Campo Grande. Nós conhecemos quase todos os artistas de teatro daqui porque nós fizemos muitas oficinas, intercâmbios, e aqui nos sentimos em casa. E nada melhor do que celebramos em nossa própria casa.

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